Sexta-feira, 10 de Julho de 2009

Todos somos o outro e não há estrangeiros


A sua convicção central é que já não há civilizações, há uma só civilização, e que os imigrantes podem ser os intermediários fundamentais. Vê sinais de que isto pode acontecer na Europa?
Vejo sinais. Se isso significa uma nova abordagem, não creio.
O que deveria ser feito?
Primeiro, deixar as pessoas à vontade com as duas culturas - têm de poder aprender a língua do novo país e não esquecer a sua língua e transmiti-la aos filhos. Depois, dignidade cultural. É muito humilhante sentir que a nossa cultura é completamente ignorada. Claro que nunca teremos milhões de franceses a falar árabe, enquanto milhões de árabes falam francês, mas se tivermos dezenas de milhares interessados em árabe, bengali ou persa, quem vem de fora não sentirá que a sua cultura é ignorada. Devia haver uma insistência no conhecimento e respeito de outras culturas. Por exemplo, não permitir escolas inteiramente de imigrantes. Em cada escola devia haver uma percentagem de 5 ou 10 por cento de gente vinda de outros países. A integração seria muito mais fácil. Não deve haver guetos.
Há uma frase sua no livro: "Já não há estrangeiros." Podemos relacioná-la com a ideia de que a pré-história do homem acaba quando todos formos "o outro".
Somos todos uma nação, e não podemos resolver problemas se não nos virmos assim: uma nação com muitas culturas. Quando começarmos a pensar dessa forma, entramos no que chamo o verdadeiro princípio da história.

Entrevista a Amin Maalouf por Alexandra Lucas Coelho (excerto)
P2 10.07.09

Segunda-feira, 6 de Julho de 2009

Em Julho há... fotografia VI

Alexandre Delmar (1982)
2008.
ÍNDIA. Delhi

Praça da alegria

"alegria em Lisboa
praça e rua
lugares para jazz clubes: HOT e CUJ
alegria do dever comprido"


PRAÇA DA ALEGRIA

Praça da Alegria! Quem te aborde
Na alegria do teu encantamento
Do pequeno lago no meio do jardim
Sentirá sempre um pequeno acorde
Vindo do lado do Hot ou um lamento
De um fado, de um bêbado ou coisa assim

Praça de muita da nossa alegria
De noites em ti tão mal compradas
Estendidas até ao nascer do dia
Numa sórdida mas intensa harmonia
Dos momentos dentro de ti passados
Ao compasso de uma velha melancolia

Ficamos em ti com a cabeça tonta
Coração, outra cidade que amamos
Como se pode amar a alegria e no entanto
Nesta nossa alegria a fazer de conta
Cá por dentro não esquecemos e levamos
A eterna melodia do teu inocente encanto

Pedro Bandeira Freire (1939-2008)

Em Julho há... fotografia V

Werner Bischof (1916-1954)
1952.
CAMBODJA

Domingo, 5 de Julho de 2009

Como se o mundo não tivesse leste

Em Abril chouveu bastante, últimas chuvas da estação. Os três primeiros meses de permanência de R na fazenda foram afanosamente preenchidos com a implantação de uma vedação de arame à volta da fazenda. R. acordava a meio da noite ainda, na barraca de zinco, ouvindo o Calembera às voltas com o fogo, para fazer café. Lavava a cara na bacia de esmalte, cá fora, aquecia as mãos no telheiro da cozinha, bebia a zurrapa e arrancava no jipe. Trezentos metros à frente, no acampamento, recolhia os tractoristas e ganhava a savana, antes do sol nascer, o carro descapotável e o vento a cortar a face.

Meses frios, Junho e Julho. As nuvens baixas, sempre, de cacimbo, e a humidade, à tarde, ventosa e agreste, do lado do mar.

Cento e trinta quilómetros de periferia. À frente um tractor, a abrir a picada. O pessoal, atrás, a fazer buracos, a implantar os postes, a estender o arame. O cheiro da terra, arranhada pelo bulldozer, e o imprevisto diário de sucessivos horizontes, extensos e novos.


Ruy Duarte de Carvalho, Como se o mundo não tivesse leste

Em Julho há... fotgrafia IV

Alfredo Mueche
1997.
MOÇAMBIQUE. Maputo

Paris.8.

Decidimos sair e gozar a noite. Passavam alguns minutos das três da manhã. A Place Clichy estava às moscas, à excepção de alguns bares que estavam abertos toda a noite. A pega da perna de pau estava no sítio do costume, diante do Gaumont Palace; tinha clientes regulares, que a mantinham ocupada. Comemos qualquer coisa perto da Place Pigalle, onde já pairava um grupo de abutres que viera trabalhar naquela manhã. Tentámos ir ao barzinho onde trabalhava a nossa amiga, a empregada do bengaleiro, mas já estava a fechar. Subimos o monte em direcção ao Sacré-Coeur. Diante da Catedral, parámos para descansar durante alguns instantes, olhando para o mar de luzes bruxuleantes. À noite, Paris amplia-se. As luzes, mais suaves quando vistas de cima, reduzem a crueldade e a sordidez das ruas. À noite, vista de Montmartre, Paris é verdadeiramente mágica; estende-se no fundo de uma taça, como uma pedra preciosa lascada e enorme.

De madrugada, Montmartre torna-se indiscritivelmente adorável. Um brilho rosado e suave cobre as paredes esbranquiçadas. Os anúncios gigantescos, pintados em tons vivos de vermelho
e azul nas paredes pálidas, destacam-se com uma frescura realmente voluptuosa. Ao contornarmos o monte, cruzámos com um grupo de jovens freiras que tinham um ar tão puro e virginal, tão repousado, calmo e digno, que nos sentimos envergonhados. Um pouco mais adiante, demos com um rebanho de descia lentamente a encosta íngreme; atrás dos animais, vinha um débil mental enorme, caminhando sem pressa e assobiando para as cabras, de vez em quando. A atmosfera era de uma tranquilidade absoluta, de uma paz absoluta; poderia ter sido uma manhã do século XIV.

Henry Miller, Dias Tranquilos em Clichy

Sexta-feira, 3 de Julho de 2009

Em Julho há... fotografia III

Gueorgui Pinkhassov (1952-)
1998.
PORTUGAL. Lisboa

Quinta-feira, 2 de Julho de 2009

a meio do ano...

ontem passámos meio, e por este blog passaram estas músicas:

Sting e Peter Gabriel
- They Dance Alone

Eddie Vedder e Rahat Fateh Ali Khan - Long Road

Miguel Poveda e Chicuelo

Rokia Traoré - Dounia

Debashish Bhattacharya

John Mclaughlin Remember Shakti - Man No Pa

Dengue Fever - Sni Bong

Salif Keita e L Skadrille - Nou pas bouger

Toubab KreweBuncombe to Badala

Ray LemaSão Tomé

Hip Hop KanouLes poids des mots

Oum Kalsoum

Manu ChaoPetite blonde du boulevard brune

Omar SouleymanLeh Jani

Ray Lema - Atan'dele

Mano SoloBarbès-Clichy

Mew Am I Wry? No

Bassekou Kouyate e Ngoni Ba

Herbie HancockCantaloop Island

Em Julho há... fotografia II


Robert Capa (1913-1954)
1950. Henri MATISSE
FRANCE. Alpes Maritimes. Cimiez (Nice)

O Senhor Brecht

Os turistas

A agência de viagens enganou-se e os turistas aterraram mesmo no meio de uma guerra.
Como fazia sol, e já tinham trazido os bronzeadores e fatos de banho, os turistas sentaram-se nas varandas do hotel, a apanhar no corpo aquela luz quentinha, enquanto soavam os barulhos de bombas e tiros.
Já que traziam mapas e um roteiro da cidade decidiram dar uns passeios e visitar as ruínas de edifícios, comparando-as com as ultrapassadas indicações do guia turístico.
Já que traziam máquinas fotográficas ao pescoço decidiram tirar fotografias aos cadáveres espalhados pela rua.

Gonçalo M. Tavares, O Senhor Brecht

Quarta-feira, 1 de Julho de 2009

Em Julho há... fotografia I


Paulo Pimenta
2008. Pina Bausch
PORTUGAL. Lisboa. Teatro São Luiz

Terça-feira, 30 de Junho de 2009

Pina Bausch (1940-2009)

Morreu a coreógrafa e bailarina alemã Pina Bausch

A coreógrafa alemã Pina Bausch faleceu hoje, com 68 anos, cinco dias depois de lhe ter sido diagnosticado um cancro, anunciou um porta-voz do Teatro de Dança de Wuppertal.

Nascida a 27 de Julho de 1940, em Solingen, filha do dono de uma cervejaria local, acabaria por se tornar na grande inovadora da dança moderna, recebendo numerososo prémios, entre os quais a ordem Militar de Santiago de espada, uma das mais altas condecorações da República Portuguesa.

Na antevéspera da sua morte, no domingo, Pina Bausch ainda pisou o palco da Ópera de Wuppertal, para mais um espectáculo da sua última criação, uma coreografia ainda sem título, que mais uma vez foi aclamada pelo público.

Wuppertal, uma pequena cidade na Bacia do Ruhr, agradeceu tudo o que Pina Bausch fez pela cidade, atribuindo-lhe o título de cidadã honorária, em 2008.

Philippine (Pina) Bausch descobriu a sua vocação para a dança logo em criança, aos 14 anos começou a frequentar as aulas de Kurt Jooss, o inovador da dança expressionista, na recém-fundada Escola Folkwang, em Essen.

Pouco depois recebeu uma bolsa de estudo que lhe permitiu rumar a Nova Iorque, para frequentar a Juilliard School of Musici.

Seguiram-se curtas estadas como bailarina no elenco do New American Ballet, e na Metropolitan Opera, onde contactou famosos coreógrafos da época.

Jooss foi buscá-la outra vez para Essen, e começou então a criar as suas próprias coreografias - a primeira, "Fragmento", foi baseada numa peça musical de Bela Bartok -, em finais dos anos 60 do Século passado.

A sua coreogafia da "Sagração da Primavera", de Igor Stravinsky, é inesquecível e constitui um marco na histórica da dança, segundo os especialistas.

Em 1973, o director-geral do Teatro de Wuppertal, Arno Wuestenhofer, confiou-lhe a direcção da companhia de dança, que viria a alcançar renome internacional.

Em mais de 40 coreografias, Pina Bausch fundiu o teatro, a dança moderna, a pantomima e o musical, moldando um novo estilo.

"O corpo e o movimento são a melhor possibilidade de expressar o que me emociona e nos emociona a todos", disse certa vez a coreógrafa alemã.

Além da ordem Militar de Santiago de Espada, Pina Bausch recebeu outras grandes distinções pela mundo fora, como a Grã-cruz de Mérito da Alemanha, o Prémio Quioto, O Prémio Imperial do Japão, o Prémio do Teatro Europeu, a Medalha Picasso da UNESCO.

A última vez que Pina Bausch esteve com a sua companhia em Portugal foi em 2008, num festival dedicado ao seu trabalho, no Centro Cultural de Belém (CCB).

Na altura, a coreógrafa voltou aos palcos como dançarina, interpretando uma das suas coreografias, "Café Muller", no Teatro São Luiz.

Luísa Taveira, que, com Jorge Salavisa, organizou então a vinda da coreógrafa, assinalou hoje à Lusa que aquela terá sido, possivelmente, a última vez que Pina Bausch dançou em público.

Dez anos antes, por ocasião do Festival dos 100 Dias da Expo´98, Pina Bausch tinha apresentado em Portugal a coreografia "Masurca Fogo".

Numa terceira presença em Portugal, em Outubro de 2006, a coreógrafa esteve com a sua companhia no Teatro São Luiz para apresentar os espectáculos "Ten Chi", um projecto por ela desenvolvido no Japão, e "Nelken", uma coreografia dos anos 80.

In Dn online 30.06.09

Ler a entrevista de Pina Bausch ao Ípsilon, em Maio de 2008, aqui



Omar Souleyman



Omar Souleyman, Leh Jani

No público não havia bracinhos a dar a dar. Ou por outra, até havia alguns, mas nada de escandaloso, nada de muito sem ritmo, ou ritmos desencontrados. Quem por lá andava sabia mais ou menos ao que ia, e aqueles que não o sabiam não tentaram dançar a dança do ventre só porque o música provinha de um qualquer país árabe.

Embora o público fosse diverso não deixava de ser uma elite. Qualquer que ela fosse. Certamente uns mais conhecedores de música que outros. Então o que levou uma dita elite assistir a um concerto de um verdadeiro José Malhoa oriundo da Síria. Não concordo com João Bonifácio, do Ipsilon, quando diz que aqueles gritos se assemelham à música de Quim Barreiros, são muito mais parecidos com, por exemplo Aperta com ela, de Malhoa. Já no que toca à música de carrinhos de choque... Não podia ser mais verdade. A bem da verdade não gostei nada da música mas o que é certo é que Omar Souleyman é um músico profissional (usando uma vez mais as palavras de Bonifácio) e a sua música o meio de sobrevivência, e genuína. Mais, esta apesar de utilizar instrumentos dito ocidentais não tenta fazer uma fusão.

Souleyman
antes de tudo quer agradar os seus conterrâneos e animar as suas festas. E foi por isso que lá estávamos a assistir, para conhecer uma tipo de música diferente. Música que não é feita para europeu ouvir.